Apresentação do livro Dentro do meu tempo

livroNa análise da obra poética Dentro do meu tempo, de Amélia Cortes, uma questão se impõe: em que medida é legítimo, ou possível, interpretar um poema? E como fazê-lo? Lembremos o que diz Octávio Pato na introdução de O Arco e a Lira: «Há uma característica comum a todos os poemas, sem a qual nunca seriam poesia: a participação.» Sublinhado meu. Está subjacente, parece-me, uma ideia de interação talvez não entre o poeta e o leitor mas, sem dúvida, entre o poema e o leitor. O poema, fruto do labor e da inspiração do poeta, ganha vida e carrega sentidos. Os que o autor lhe introduziu e os que cada leitor lhe descobre. Serão coincidentes? Talvez sim, talvez não, pois, ainda no dizer de Octávio Paz, «poema não é senão isto: possibilidade, algo que só se anima ao contato de um leitor ou de um ouvinte.» Há no poema uma vertente de criação, na origem, e uma vertente de experiência, esta ativada em cada leitura, por cada leitor. Lembrando ainda Octávio Paz, «A experiência pode adotar esta ou aquela forma, mas é sempre um ir além de si, um romper os muros temporais, para ser outro. Tal como a criação poética, a experiência do poema dá-se na história, é história e, ao mesmo tempo, nega a história.» Um poema, sendo intemporal, pode ser interpretado à luz de tempos diversos com interpretações diferentes.
No livro Dentro do meu tempo, Amélia Cortes regista marcas do seu tempo, do nosso tempo, que todos conseguimos identificar, mas a que, condicionados pelas nossas próprias vivências, não associamos, necessariamente, o mesmo acontecimento. Um tempo com contradições; com instabilidade, mas também com esperança: «Construo o dia após dia/na esperança/de a noite com o dia se unir». Um tempo que corresponde a um percurso, nem sempre conduzindo a um bom porto, mas sempre passível de mudança.


Assumindo-se, com grande frequência como observador, o poeta de Dentro do meu tempo, vai preparando, orientando, o leitor, numa ação voluntariamente participativa e na qual se vislumbra aqui e ali alguma cumplicidade: «Cabeças erguidas os/olhos sem névoa/Veremos/os pirilampos do céu/iluminando/o mundo e o universo.
Situando-se num tempo «o meu tempo», não se dissocia de um espaço que é percorrido e para o qual somos alertados logo no poema inaugural Trilhos:
Nos trilhos do mundo/Há lamentos há negrume. Pela leitura desta abertura, dir-se-ia que espera o leitor uma visão negativa deste tempo. Não! No poema Dentro do meu tempo, encontramos o sofrimento, o negrume, mas encontramos, também, a luz: Na candeia pego/Me ilumino/Dentro do meu tempo.
Como observadora, Amélia Cortes vai-nos mostrando, de forma desassombrada e dinâmica, os problemas do nosso tempo mas, geralmente, sem apagar a réstia de esperança. Temas como a poluição, a crise social, as convulsões políticas estão presentes, as catástrofes naturais. Num processo que se prevê de interação e de mudança, como poderemos ver no poema Maldizer: «Rodeado de preto nas tuas palavras/ não te escuto [mudança] te escuto/ rodeado pelo branco de tuas palavras»
A natureza tem lugar predominante em Dentro do meu tempo quer de forma direta, quer enquanto evocação e simbologia. Em Amoras silvestres, assistimos a um ciclo completo, partindo de uma situação de negativa, quiçá de quietude sazonal, vive-se uma situação de sofrimento redentor «As lágrimas desfiguram o meu rosto» à qual se segue um período de beleza criadora «A montanha se humedece e/ de verde se veste».
Numa interação consabida, Amélia evoca o poeta, na sua característica mais nobre em Ser sonhador: «Poeta à força não/o poeta não tem escola/não se constrói/ o poeta nasce poeta.»
Muito mais haveria dizer. Muito mais há a descobrir. Parabéns, Amélia por mais esta obra encantadora. Singela, mas não simplista. Prenhe de sentidos. Exuberante de vida. Aqui, o poeta vai «além de si, [n]um romper os muros temporais, para ser outro.» Para nos convocar a sermos outros, sendo nós. Obrigada, Amélia!

Edite Prada

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